No escuro da noite, sigo segurando o manche com as mãos trêmulas. Sozinho, neste breu e neste barco, a maré tranquila me faz lembrar de quem fui e de um coração que já não encontra cura.
Não faz tanto tempo que eu segurava o manche com todas as forças, enfrentando a maior tempestade que já presenciei. Ondas enormes e correntezas impossíveis de navegar me desafiavam, mas segui firme, pedindo a Deus habilidade e um pouco de misericórdia. Desejava que tudo passasse logo, pois já não suportava tanto esforço.
Foi então, quando tudo parecia perdido e eu estava prestes a soltar o manche, resignado com meu fim, que ouvi uma voz doce, entoando palavras de amor e uma melodia que me entorpecia dos pés à cabeça. Era uma sereia — a mais bela que poderia existir — e que vinha me resgatar do destino que parecia inevitável.
Ela guiou meu barco até onde eu podia novamente controlar o rumo. Conduziu-me para fora daquele caos, oferecendo-me um breve abrigo, para que eu recuperasse corpo, mente e espírito para o que viesse a seguir.
Os bons marinheiros sempre me avisaram: “nunca ouça uma sereia, elas são perigosas e podem te destruir se você se apaixonar por elas”.
Mas essa era diferente. Essa era especial. Não apenas me salvou, mas aceitou, após muito tempo e esforço, subir ao meu convés e conhecer minha embarcação. A cada cômodo que eu mostrava, percebia que ali era onde ela queria estar. E a cada história que eu contava, ela sorria, sentindo-se em casa.
Foram dias felizes como nunca antes. Eram verdadeiros todos os momentos em que a amei e os suspiros ao vê-la, não pela beleza, mas pela essência que transbordava.
Contudo, algo me faltava. Para além do convés, era preciso mergulhar nas profundezas do oceano dela para conhecer a verdade. Mas lá, só haveria ar se ela estivesse comigo, de mãos dadas, mergulhando ao meu lado.
Então, quando a tormenta retornou com uma força colossal, decidi mergulhar de cabeça, determinado a explorar as profundezas daquele oceano. Cada metro revelava um universo fascinante, rico em natureza e amor. Não me importava mais com o que pudesse acontecer; eu só queria estar ali, ao lado dela, imerso naquele mar de descobertas.
Foi então que percebi a falta de ar. Suas mãos já não seguravam as minhas, e eu me afogava sozinho, preenchido apenas pelo meu próprio amor.
Fui eu quem decidiu subir, pois já não havia ar para mim. Não havia amor suficiente para segurar minha mão e me mostrar toda a beleza do fundo do oceano.
Subi porque era o que restava. Depois, deitado quase sem vida no convés, percebi que estava só novamente. A tormenta havia passado, mas minhas mãos tremiam, esgotadas. Eu havia enfrentado o pior momento da minha vida, acreditando ter encontrado a paz, mas, na verdade, encontrei apenas a morte em formas diferentes. A tormenta levou a vida da minha melhor tripulante e, junto com ele, levou também meu amor. Meu coração ainda bate, mas eu morri por dentro. Morri porque perdi alguém que amava e porque achei que poderia amar uma sereia — uma sereia que nunca me amou de verdade.
